A Partida da Morte

O Começo

O dia 22 de junho de 1941 está marcado na história. Foi quando Hitler começou a Operação Barbarossa, quebrando o pacto de não-agressão com a União Soviética. Os alemães rumaram para Kiev, na Ucrânia, e Minsk, na Bielorrúsia, dois países que faziam parte do regime “socialista”. Os soviéticos foram pegos de surpresa, e não conseguiram evitar que em poucos dias as duas cidades fossem tomadas pelos nazistas.

Só em Kiev, foram capturados mais de 600 mil soldados soviéticos, logo abrigados em condições precárias. Os prisioneiros “inofensivos” puderam voltar a viver na cidade, agora tomada pelos alemães. E assim foi o caso de 8 jogadores do Dynamo Kiev, vivendo sem abrigo e sem comida nas ruas ocupadas.

Kiev destruída após o ataque nazista

Nossa história começa com Iosif Kordik. Kordik possuía ascendência alemã, e por isso era gerente na Padaria Nº 3 da cidade ocupada. Certo dia, ele encontrou o “gigante” Nikolai Trusevich, ex-goleiro do seu time Dynamo Kiev, andando pela cidade. Decidiu contratá-lo para a padaria, dando abrigo e comida para seu ídolo.

O padeiro teve a idéia de tentar remontar seu antigo clube do coração. Pediu ajuda ao ex-goleiro, que foi procurar seus antigos colegas pela cidade. Trusevich primeiro encontrou Goncharenko: “ele veio até mim para conversar sobre essa idéia [de montar o time] e procurar alguns dos outros jogadores. Entramos em contato com Kuzmenko e Svyridovskiy, e eles contataram alguns dos outros”

No meio do ano de 1942 o time já estava completo. Contava com oito jogadores do Dynamo e três do Lokomotiv Kiev. O Dynamo estava proibido de jogar, até por ter sido financiado e patrocinado pela polícia secreta soviética, e então foi criado o Ctapt (ou FC Start). Um novo “começo” para aqueles jogadores.

O Time

A Liga Nacional “oficial” havia sido interrompida em 1941, desde a invasão. Mas haviam ligas e jogos formados principalmente por times de soldados nazistas, que eram imbatíveis contra os das regiões ocupadas, onde as pessoas mal se alimentavam. Os alemães até incentivavam a liga de futebol para dar um ar de “normalidade” e buscar certo apoio dos cidadãos. Alguns dos jogadores ucranianos achavam que jogar a liga era contribuir com os nazistas, enquanto outros achavam importante jogar para tentar levantar a moral de seu povo. Decidiram jogar.

Para reforçar o fato de estarem jogando pela cidade, pela pátria, optaram por jogar com camisas vermelhas, encontradas em um galpão abandonado. O discurso ficou com Trusevich: “Nós não temos armas, mas nós podemos lutar vencendo no campo de futebol. Por um tempo, jogadores do Dynamo e do Lokomotiv jogarão pela mesma cor, a cor de nossa bandeira. Os fascistas deveriam saber que essa cor não pode ser derrotada.” E foi assim que aconteceu com o Start.

O FC Start

O primeiro jogo, no dia 7 de junho de 1942, foi contra um outro time da Ucrânia, o Rukh. Venceram por fáceis 7-2. Os jogos seguintes foram contra soldados de guarnições de outras cidades ocupadas. E foram tão fáceis quanto. Venceram por 6×2 a guarnição húngara, e 11×0 contra a guarnição romena.

Os nazistas identificaram que tamanhas vitórias do Start sobre os alemães poderia “abaixar” a moral das tropas, ao mesmo tempo em que inspirava os ucranianos. Assim, os alemães, que julgavam possuir uma raça superior, precisavam vencer os ucranianos. E usar a vitória como propaganda a favor do nazismo.

Os alemães até tentaram aumentar o preço dos ingressos para afastar os ucranianos, mas o futebol se tornou uma das poucas (se não a única) forma de diversão e esquecer da vida difícil que estavam levando. Continuaram a encher os estádios.

O FC Start não parava de vencer, sempre com goleadas. Venceu o time dos operários da estrada de ferro por 9×1, e a equipe da Wehrmacht, um combinado das Forças Armadas da Alemanha, por 6×0.

Um time melhor qualificado foi chamado para vencer o Start. Eram as Forças Armadas da Alemanha na Hungria. O primeiro jogo foi 5×1 para os ucranianos. Na revanche, uma vitória apertada: 3×2 para o Start.

Alguém precisava parar com essa série de vitórias do “time do padeiro”. Foi chamado um dos melhores times da época. Era o Flakelf, time da Luftwaffe (Força Aérea Alemã). Não adiantou, 5×1 para o FC Start.

Os alemães pediram revanche. O jogo aconteceria três dias depois, em 9 de agosto de 1942, no estádio do Zenit. Cartazes anunciavam a “vingança“. A Partida da Morte iria ser jogada.

"Vingança!", o cartaz que anunciava a revanche

O Jogo

Esse jogo era diferente dos outros. A obsessão dos nazistas era clara. Uma grande quantidade de policiais e tropas alemães estavam na partida. Um oficial da SS, uma das organizações nazistas mais poderosas, foi escolhido como árbitro.

O time do Start já começou a ser intimidado antes do jogo. O “árbitro” foi até o vestiário: “Eu sou o árbitro do jogo de hoje. Eu sei que vocês são um time muito bom. Por favor sigam todas as regras, não quebrem nenhuma regra, e antes do jogo saúdem seus oponentes da nossa maneira”. A “nossa maneira” era a saudação nazista, “Heil Hitler!”.

Os jogadores ucranianos logo mostraram que não estavam dispostos a se entregar para a ideologia nazista. A saudação que fizeram para os adversários foi outra: “Fizsculthura!”, a expressão soviética que mistura as palavras “fitzcultura” e “hurrah”, que significam “cultura física” e “vida longa ao esporte”.

Como esperado, o oficial da SS ignorava completamente as faltas do time nazista. A violência do time alemão chegou ao ponto do atacante chutar a cabeça de Trusevych, o goleiro ucraniano. Enquando ainda se recuperava do golpe, os alemães abriram o placar. 1 a 0.

O Flakelf continuava a fazer todo tipo de falta sem nenhuma marcação do árbitro. Mas o FC Start conseguiu o empate. Veio em uma falta cobrada de longa distância por Kuzmenko. A virada veio com Goncharenko, que driblou toda a zaga alemã e fez o gol. Os ucranianos ainda fizeram mais um gol, e foram para o intervalo vencendo por 3 a 1.

No vestiário, os jogadores do Start receberam mais duas visitas. Primeiro, Shvetsov, técnico do Rukh e organizador da liga de futebol. Disse para eles entregarem o jogo. Em seguida veio outro oficial da SS, dizer que os alemães estavam impressionados com a habilidade deles, mas deviam entender que não podiam esperar que vencessem o jogo, e deveriam considerar as conseqüências caso ganhassem.

Os ucranianos não deram bola para o aviso, ou então resolveram jogar pelo ideal: provar não existir a tal raça superior dos alemães. No segundo tempo, cada time marcou mais duas vezes. FC Start 5 x 3 Flakelf. No final do jogo, o zagueiro Klimenko passou por diversos jogadores alemães, inclusive o goleiro, e ficou sozinho com o gol. Ao invés de marcar mais um, virou e chutou a bola para o meio de campo, mostrando assim seu menosprezo pelos nazistas. Ainda nem haviam sido completados os 90 minutos de jogo, mas o árbitro da SS encerrou a partida. Vitória para o FC Start, o time que nunca perdeu.

E depois?

Apesar de temer que as ameaças se concretizassem, nada aconteceu até o dia 16 de agosto. Nesse dia, inclusive, o FC Start jogou sua última partida. Venceu novamente o Rukh, por 8 a 0. Poucos tempo depois, porém, a Gestapo, polícia secreta nazista, foi até a Padaria Nº 3.

Goncharenko e Sviridovsky em frente ao monumento dedicado aos colegas de time

Com a alegação de que pertenciam à NKVD, polícia secreta soviética que havia financiado o Dynamo, a maioria dos jogadores foram presos e torturados. Alguns dizem que  Kordik, o padeiro, foi o primeiro a morrer: torturado até a morte na frente dos jogadores. A maioria do time foi mandado para o campo de concentração de Siretz.  Korotkykh foi o primeiro jogador a morrer, sob tortura. Ali também foram executados, em fevereiro de 1943, os jogadores Ivan Kuzmenko, Oleksey Klimenko, e o goleiro Nikolai Trusevich, que dizem ter morrido com a camisa do FC Start.

Goncharenko, Sviridovsky, e Tyutchev não estavam na padaria no dia fatídico, e viveram escondidos até a libertação de Kiev em novembro de 1943. Foram os principais responsáveis por tornar conhecida a história do FC Start.

Até os dias de hoje a “partida da morte” se mostra importante na história ucraniana. Quem ainda possui os ingressos daquela partida tem passe livre nos jogos do Dynamo Kiev. Uma pequena homenagem a quem pôde assistir “aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista”, como diz o monumento que honra os jogadores do Start.

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5 respostas para A Partida da Morte

  1. Rafaela Musto disse:

    Essa história é incrível!lá no estádio do Dynamo tem umas fotos contando,além do monumento,e em vários museus de guerra também.Eles realmente se orgulham dessa partida e do time…
    Parabéns pelo texto!

  2. Daniel S disse:

    Legal,
    Mas sabe o que ocorreu com o gerente da padaria?

    • Cara, alguns dizem que ele morreu torturado na frente de todos os outros, logo quando a Gestapo apareceu. Aí os jogadores foram mandados para o campo de concentração.
      De qualquer forma, vou adicionar essa informação ao texto.

  3. Alexandra Sokolowski disse:

    Eu gostaria muito de comprar esse filme.
    Alguém saberia me indicar onde poderia?

    Obrigada

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