Matthias Sindelar, o homem de papel

O maior jogador austríaco de todos os tempos. Essa é a melhor definição de Matthias Sindelar, craque de sua seleção que ficou famosa nos anos 30. Mas já adianto que o  final dessa história não é feliz. Em 1938, Sindelar viu sua Áustria ser tomada pela Alemanha Nazista. No ano seguinte, seria encontrado morto, aos 35 anos, em circustâncias suspeitas.

O futebol austríaco atual não é nem sombra do que foi nos anos 30, quando recebeu o apelido de “Wunderteam“, o “time maravilha”. Sindelar era o capitão e maestro daquela equipe que jogava com passes rápidos, o que lhe rendeu o apelido de “Mozart do Futebol“.

Em toda sua carreira profissional, Sindelar só jogou em um time: o FK Austria Vienna. Conquistou 5 Copas da Áustria (1925, 1926, 1933, 1935, e 1936), um campeonato nacional (1926), e duas Mitropa Cup, um dos primeiros torneios europeus (precursor da Champions League), em 1933 e 1936. Mas seria na seleção que o “Homem de Papel“, apelido dado devido ao seu biotipo, iria se sobressair.

O Wunderteam: Sindelar é o 5º, em pé, da esquerda para a direita

Matthias Sindelar estreou na seleção da Áustria antes mesmo da história das Copas começar. Foi em 1926, contra a Tchecoslováquia, e já marcou um gol na vitória por 2 a 1. Até o seu último jogo pela seleção, em 1937, marcaria 27 gols em 43 partidas. Mas era seu estilo inteligente de simplificar as jogadas que marcava o torcedor.

A Áustria, como a maioria dos países europeus, não participou da Copa de 30. A viagem até o Uruguai era longa e cara. Em 1932, o futebol não entrou nas Olimpíadas de Los Angeles, mas a seleção austríaca venceu o torneio europeu de seleções (a atual Eurocopa). Foi para a Copa de 34, na Itália, como favorita. Entre 31 e 34, aliás, a Áustria conseguiu 9 vitórias em 12 partidas, com goleadas de 5 a 0 sobre Escócia e Alemanha, e 8 a 1 sobre a Suécia, por exemplo. Empatou duas partidas, e só perdeu para os ingleses, por 4 a 3.

Na Copa, a Áustria não conseguiu provar seu favoritismo. Talvez por questões que  não estivessem ao alcance daquele time. A equipe perdeu na semifinal, para a Itália (1 a 0), com um gol de Sindelar anulado. Havia todo um clima “bélico” naquela Copa, realizada na Itália fascista, e a Copa era uma ótima opção para a propaganda de Mussolini, que dizem ter tido uma participação “nos bastidores”. Mas também não se pode tirar o mérito do time italiano, que possuía uma boa equipe, e saíria como campeã mundial. Na disputa de terceiro lugar, a Áustria, menos motivada e sem Sindelaar, machucado, perdeu por 3 a 2 para a Alemanha.

O habilidoso Sindelar deixa o adversário no chão

Sindelar ajudou seu país a se classificar para a Copa seguinte, na França, mas nunca jogaria. Em março de 1938, as tropas nazistas invadiram a Áustria e anexaram-no à Alemanha. Os oficiais alemães exigiram que os jogadores austríacos jogassem pela seleção nazista, acabando com a seleção austríaca. Antes, porém, haveria um último jogo. Um amistoso Áustria x Alemanha, para servir como propaganga nazista.

Os austríacos, a desejo de Sindelar, jogaram de camisas e meias vermelhas e calções brancos, as cores da bandeira da Áustria. Alguns dizem que o jogadores foram instruídos a não vencer a partida, e outros que o jogo estava marcado para ser empate. Os austríacos controlavam e jogo, e perdiam chances de propósito. Porém, aos 70 minutos, Sindelaar marcou um gol e comemorou enfaticamente, bem em frente a tribuna dos oficiais nazistas. A seleção austríaca ainda marcaria mais um, e venceria a partida por 2 a 0. Como as coisas não poderiam ficar assim, os alemães pediram revanche e venceram por 9 a 1. Oh, que vitória incrível dos alemães…


Sindelar (esq.) jogando com as cores da Áustria contra a Alemanha

Sindelar se recusou a jogar pela Alemanha. Sempre inventado uma desculpa, como lesões, ou que já estava velho para jogar na seleção. É claro que o que o Homem de Papel não queria era atuar pelo time nazista. Os outros austríacos que jogaram pela Alemanha também sempre estiveram abaixo das expectativas.

Todas essas atitudes “marcaram” Sindelaar, que também era visto pela Gestapo (polícia secreta alemã) como pró-judeu e social-democrata, dois “crimes“. Em 23 de janeiro de 1939, com apenas 35 anos, Sindelar e sua namorada foram encontrados mortos em seu quarto. A versão oficial foi que os dois morreram porque teriam se asfixado por monóxido de carbono (algo comum na época). Também existe a versão de suicídio, mas a mais provável é que ambos tenham sido mortos pela polícia nazista.

Matthias Sindelar foi um jogador sensacional, e representou seu país como poucos. Além da sua incrível habilidade, também mostrou seus ideais ao rejeitar o nazismo. Provavelmente foi morto por isso, sendo mais uma vítima desse sistema que não aceitava contestação. Foi enterrado no Cemitério Central de Viena, onde também estão os túmulos de Beethoven, Brahms, Schubert, Johann Strauss. Nada mais justo para o Mozart do futebol.

Túmulo de Sindelar, no Cemitério Central de Viena

 

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