Crônica: Muricy Ramalho é o novo técnico do Barcelona

Por Kim Paiva

 

 

 

 

 

 

Calma, isso não é uma notícia. É apenas uma crônica que mostra uma situação hipotética em que Muricy Ramalho assume o comando técnico do Barcelona. Gostaria de ressaltar que a crônica não expressa a minha opinião sobre Muricy, na verdade é uma caricatura desse grande técnico brasileiro.

Antes que a temporada 2011-12 se iniciasse, o presidente do Barcelona Sandro Rosell anunciou a saída de Josep Guardiola e surpreendeu a todos. Rosell argumentou que o técnico espanhol estava desgastado e que muitos atletas seguiram o exemplo de Ibrahimovic, contestando publicamente as decisões de Guardiola.

É claro que a notícia paralisou o mundo do futebol, que viveu intensamente a expectativa de quem teria a honra de treinar o time de Messi, Xavi, Villa e Cia. Falou-se em Mourinho, que poderia repetir Luís Figo ao avesso, trocando o Bernabéu pelo Camp Nou. O que se viu, no entanto, foi uma repetição do que houve com o Real Madrid em 2005, quando a equipe contratou um técnico brasileiro. Agora, porém, em vez de trazer o decadente Vanderlei Luxemburgo, Rosell optou pelo técnico da moda, que disse não à seleção brasileira e ainda conquistou seu quarto título brasileiro em cinco anos, com o Fluminense. Muricy Ramalho chegava, assim, ao comando do Barcelona.

O brasileiro não pôde conter a alegria ao desembarcar no maior time do mundo, que, como os barcelonistas dizem, é “més que um club” (mais que um clube). O primeiro dia de clube foi uma festa só. Desde a apresentação, com direito a embaixadinhas e tudo (o pessoal de lá foi informado da grande qualidade de Muricy como jogador), até a coletiva de imprensa, ótima oportunidade para Muricy repetir insistentemente que estava honrado pela oportunidade de treinar o Barcelona.

Porém esse foi apenas o começo do primeiro dia, que seria longo e prometia fortes emoções para o treinador. Não tanto pela pressão da torcida ou da diretoria, mas pelas próprias idéias de Muricy, um pouco diferentes do modo Barcelona de jogar futebol.

No fim da tarde, quando a imprensa já havia deixado o Camp Nou, Rosell levou o novo técnico para dar uma volta pelo lendário estádio do Barcelona. Como era de se esperar, os dois conversaram informalmente sobre a montagem do elenco para a temporada seguinte e sobre os jogadores admirados pelo técnico brasileiro. Foi aí que o coração dos dois começou a bater mais forte.

– Muricy, vamos pegar como base nosso time titular da temporada passada e ver onde podemos melhorar. O que você pensa de nosso goleiro Victor Valdés?

– Olha, Sandro, o Valdés é bom goleiro, mas creio que a gente possa encontrar melhores opções.

– É, realmente, Muricy. Nesse ponto vejo que concordamos. E nossos laterais, Dani Alves e Maxwell?

– Bom, o Daniel é ótimo no apoio ao ataque, mas ele é mais um meia-atacante ou segundo atacante. E o Maxwell tem que ser um meia bem aberto pela esquerda. Se os dois ficarem nas laterais vão nos deixar muito desprotegidos atrás. É um risco enorme!

Nessa hora Sandro Rosell começou a estranhar as idéias de Muricy, mas até relevou por saber que Daniel e Maxwell chegaram a atuar no meio-campo.

– Realmente o Daniel é quase um meia muitas vezes. Mas de minha parte você pode ter certeza que terá respaldo para escalar os dois pelas laterais. Eu assumo o risco, se é que existe esse risco todo que você diz.

– Sandro, aquele 1º volante, o Sergio Busquets, vai ser muito importante no meu time por causa de sua altura. Vou usá-lo bastante em bolas paradas.

Rosell não entendeu muito bem, já que as bolas paradas definitivamente não eram prioridade no Barcelona, mas acabou concordando que Busquets tem uma altura interessante para o jogo aéreo.

– Acho que sobre a dupla de meias não preciso nem comentar, certo Muricy? Iniesta e Xavi são verdadeiras referências no futebol atual.

– Não é bem assim, né Sandro? Eles podem até ter um bom toque de bola e tudo mais, porém são muito baixinhos e franzinos. Não posso garantir que vou manter os dois no time titular. Como que fica na bola parada com dois jogadores tão baixos? Não tem como, pô. Eu indicaria para o lugar de um deles o Edinho, grande volante que trabalhou comigo no Internacional e no Palmeiras. Garanto que ele pode manter a qualidade do passe e contribuir com mais força física e altura.

Nessa hora Sandro Rosell viu que as coisas não caminhavam bem e aquela conversa prometia mais emoções do que um clássico contra o Real Madrid.

– Bom, nesses dois jogadores eu devo adiantar que você não poderá mexer. Eles são o motor do time e a torcida os adora. Nosso atacante David Villa também não é nenhum gigante, não vá me dizer que você pretende trocá-lo também…

– Mas é claro que pretendo. Como que um baixinho de 1,75 m pode ser o centroavante do meu time? Ele será um jogador de segundo tempo e olhe lá. O camisa 9 que eu indico a você é o Washington, do Fluminense. Ele tem 1,90 m e é muito experiente, será mortal nas bolas paradas ofensivas e vai ajudar a defender nos escanteios do adversário, além de ser um jogador muito técnico. E a dupla de ataque dele vai ser o Hugo, que trabalhou comigo no São Paulo. É o cara mais decisivo que eu já vi, acerta chutes inacreditáveis de fora e talvez seja o melhor cabeceador do futebol mundial.

– Não, Muricy. Pode esquecer. Nós gastamos 40 milhões de euros no Villa e ele fez mais de 30 gols em sua temporada de estréia. Vai ser nosso atacante de referência.

– Fazer o que, né… Vamos tentar com ele. Mas tem um jogador que eu realmente não vou poder manter na equipe, porque é muito fraquinho e não tem nenhuma condição no jogo aéreo. É o argentino, driblador, acho até que ele é o camisa 10 do time.

Rosell começou a suar frio e deu uma afrouxada na gravata para tentar relaxar.

– Calma, Muricy, deve estar havendo um engano. Nosso camisa 10 é o Messi, jogador genial, melhor do mundo incontestavelmente. Você ta falando dele?

– Sim, ele mesmo. Você pode botar na lista de dispensa. Pra vestir a camisa 10 do meu time eu quero o Diego Souza, que já teve uma passagem muito bem-sucedida pela Europa, no Benfica. Ele é forte, tem um chute potente e bom cabeceio. É mais completo que o Messi. Será o meu armador.

A essa altura Rosell já havia aberto três botões de sua camisa e o desespero tomava conta do presidente do Barcelona. Ele ainda queria acreditar que era um engano ou uma brincadeira de Muricy Ramalho.

– Peraí, você não está falando sério. Vamos deixar de piadinhas e conversar seriamente. Já que você ta fazendo gracinha sobre os jogadores, vamos falar sobre o esquema tático. Você vai manter o nosso tradicional 4-3-3 ou pretende mudar algum detalhe?

Muricy não gostou do tom de Rosell e ficou irritado com a postura do presidente.

– Olha Sandro, se você acha que eu vim aqui para brincar, você está muito enganado. Não sou técnico de ficar fazendo piadinha, meu negócio é trabalho. E sobre o esquema, eu digo desde já que time que eu treino não joga em qualquer esquema que não seja o 3-5-2. E EU NÃO ESTOU DE PIADINHA.

Nessa hora Sandro Rosell não suportou a tensão e acabou tendo um AVC.

Logo em seguida chegaram os médicos e Rosell se recuperou a tempo de trocar mais algumas palavras com o técnico brasileiro.

– Muricy, eu lamento o engano, mas creio que você não seja o técnico que procuramos para o Barcelona. Você não é mais nosso técnico. E EU NÃO ESTOU DE PIADINHA.

Muricy ficou desolado, mas ainda teve força para estender o braço em respeito a Rosell. O presidente do Barcelona ignorou o gesto e não se dignou a apertar a mão do brasileiro, que ficou ainda mais desolado por ser humilhado novamente por um dirigente em menos de dois anos.

Assim terminava a curta aventura de Muricy Ramalho na Catalunha. Na volta ao Brasil, todos os jornalistas estavam curiosos para saber o que havia acontecido. Muricy foi direto ao ponto e esclareceu tudo com uma frase: “Espanhol não entende nada de futebol.”

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Uma resposta para Crônica: Muricy Ramalho é o novo técnico do Barcelona

  1. Rafael Regis disse:

    Genial Kim! É isso que falta no jornalismo esportivo brasileiro, algo diferente e divertido. Com uma história fictícia você analisou as características do melhor treinador brasileiro e do melhor time do mundo da atualidade. Aguardo a próxima crônica.

    Rafa

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