Barcelona transforma utopia em realidade

Por Kim Paiva

Tenho 20 anos. Acompanho futebol seriamente há 12. Desde a chegada de Ronaldinho ao Barcelona, tenho acompanhado com atenção a equipe catalã. No liso gramado do Camp Nou, é praticado o futebol mais vistoso há pelo menos seis anos. Nesse meio tempo acompanhei a ascensão do gênio dentuço, que teria a chance de entrar no grupo de lendas do futebol em 2006, com a conquista de sua segunda Copa do Mundo. Infelizmente não aconteceu e, desde então, sua carreira tem sido melancólica. A saída de Ronaldinho me deixou em dúvida se o Barcelona teria condições de manter aquele padrão, ganhando títulos e encantando a todos. Hoje estou certo de que a equipe conseguiu isso e ainda melhorou o que parecia perfeito.

Posso dizer com tranquilidade que a partida entre Barcelona e Real Madrid da última segunda-feira foi a exibição mais perfeita que eu vi de um time enfrentando um adversário de nível similar. É difícil traduzir em palavras o que aconteceu no Camp Nou. Talvez o placar (5 a 0) seja o indício mais claro do massacre que aconteceu no jogo mais aguardado do ano.

"Mais que um clube". Poderia ser também "Muito mais que um clube"

O jogo

Não houve surpresas nas escalações. Embora se especulasse a escolha de Mascherano para reforçar a marcação no meio-campo, Guardiola não abriu mão de sua equipe titular e, principalmente, do estilo de jogo do Barcelona. Mourinho escalou sua equipe considerada ideal, mas inverteu o posicionamento de Di Maria e C. Ronaldo, visando evitar as perigosas investidas de Daniel Alves. Di Maria, com maior capacidade de recomposição, certamente era a melhor escolha para marcar o ofensivo lateral-direito, mas o jogo mostrou que esse detalhe acabou sendo indiferente.

Com a bola rolando a imposição do Barcelona foi imediata. Mourinho sabia que não poderia enfrentar o Barcelona de peito aberto, pois seria suicídio. Lembrando do sucesso que teve dirigindo a Inter, o técnico do Real Madrid prendeu seu time e esperou o Barcelona trocar passes na intermediária, esperando uma chance de partir no contra-ataque com Di Maria ou Cristiano Ronaldo. A surpresa do vitorioso treinador veio logo de cara, quando ficou claro que o Real Madrid não conseguia acompanhar a rapidez do Barcelona e o time da casa avançava como queria desde sua intermediária até a área do Real Madrid apenas com passes curtos e movimentação.

Pode-se dizer que essa facilidade do Barcelona é resultado de uma combinação de dois fatores. Primeiro, é preciso ressaltar que os volantes Xabi Alonso e Khedira, do Real Madrid, não são muito rápidos e tampouco são cães de guarda. A conseqüência imediata dessas características é a liberdade para Xavi e Iniesta trabalharem a bola no meio-campo, distribuindo o jogo sem qualquer dificuldade.

A revolução de Guardiola

Guardiola: craque como jogador e cada vez mais craque também como técnico

O outro fator, para mim o mais importante, é a versão 2010-2011 do Barcelona, que talvez tenha alcançado o esplendor da escola catalã – de posse de bola, movimentação e passes curtos. Isso se deve à mudança de posicionamento de Messi, à saída de Ibrahimovic e à chegada de David Villa.

Com Ibrahimovic, o Barcelona tinha um centroavante fixo na área, o que facilitava a vida dos zagueiros, já que eles tinham uma referência para realizar a marcação. Ainda assim, Messi era capaz de surpreender a marcação adversária, pois mudava de posição constantemente, indo de uma ponta à outra. Isso era possível porque Guardiola centralizou Messi, deixando os lados do campo para Pedro e Iniesta. Nos tempos de Rijkaard, Messi era um ponta-direita e não tinha tanta liberdade de movimentação.

Não cabe discutir se Rijkaard é melhor ou pior do que Guardiola, ambos são ótimos treinadores. O primeiro tinha Deco e Ronaldinho, o que tornava Xavi e Messi coadjuvantes. O segundo, sem os dois brasileiros, viu o crescimento do gênio argentino e capitalizou em cima disso, aproveitando-se do fato de conhecer profundamente os jogadores saídos das divisões de base do Barcelona, casos de Xavi, Iniesta, Busquets, Piqué, Pedro, Messi, entre outros.

Já na final da Champions League de 2009, Guardiola surpreendeu a todos escalando Eto’o na ponta-direita e Messi como centroavante. A escolha deu tão certo que Messi espantou o mundo ao marcar um gol de cabeça. Certamente Guardiola não estava louco colocando Eto’o na ponta, já que Mourinho repetiu a fórmula em 2010 para conquistar a Europa pela Inter de Milão.

 

Os 3 principais astros da equipe vão colecionando troféus

A passagem de Messi para a faixa central foi o início de uma revolução, que se intensificou na temporada atual. Se em 2009-10 o Barcelona atuou num 4-2-3-1, na temporada atual o time retomou o seu tradicional 4-3-3. Porém esse Barcelona que tem Pedro como ponta-direita, David Villa como ponta-esquerda e Messi como centroavante não pode ser simplesmente traduzido em três números que descrevem quantos jogadores atuam em cada faixa do campo. Pedro e Villa podem mudar de posição a qualquer momento, seja invertendo o lado, seja se infiltrando como centroavante. Messi, que seria teoricamente o camisa 9, sai toda hora da área, deixando os zagueiros sem saber o que fazer.

Villa, que possui um enorme poder de finalização, tem muita familiaridade com o comando do ataque, por isso ocupa aquele espaço com competência. Quando isso acontece, Iniesta aparece do lado esquerdo para ocupar aquela faixa do campo. Do outro lado Daniel Alves é responsável por ajudar Pedro no apoio. Tudo isso sob a batuta do regente Xavi, que tem o controle absoluto do jogo e distribui as bolas ora com rapidez ora com cadência, de acordo com a conveniência para o time. Messi, que pouco fica na área, ajuda Xavi na criação e flutua por todas as posições ofensivas.

Como se não bastasse isso, os defensores Pique e Puyol têm confiança para trocar passes e fazem isso com naturalidade. Nem mesmo o goleiro Victor Valdes apela para chutões. A bola vai de pé em pé de um lado a outro do campo. Parece virtual.

“Melhor do que tá não fica”

David Villa, a peça que faltava para dar vida à revolução tática de Guardiola

Se considerarmos a evolução do futebol nos aspectos físico e tático, torna-se ainda mais notável a postura do time dirigido por Guardiola. Atualmente é muito raro um time se impor de forma tão categórica sobre um adversário de bom nível. A média de posse de bola do Barcelona é incomparável e o mais incrível é que os jogadores tocam sempre em velocidade e buscando o gol. O ritmo é frenético, o que teoricamente aumenta o risco de perder o controle da bola.

Após jogos como o de segunda-feira, é comum aparecerem comentários do tipo “isso sim é futebol”. Claro que é preciso fazer ressalvas em relação a essa afirmação, já que há outras formas de se jogar futebol, cada uma de acordo com as características dos jogadores do plantel.

No caso do Barcelona, a tendência para esse tipo de plano tático vem de muito tempo atrás e o plantel atual conta com muitos jogadores técnicos e, principalmente, formados em casa. O entrosamento é antigo, por isso é de se esperar que o futebol praticado seja do mais alto nível, sempre priorizando o controle da bola e tentando sufocar o adversário. Faltava ainda um grande teste para o novo esquema armado por Guardiola e o Real Madrid do badalado José Mourinho era o adversário certo para testar o potencial desse incrível esquema do Barcelona.

Os cinco gols sofridos pelo Real Madrid foram o primeiro forte indício de que o atual Barcelona é o time do momento e é bom prestarmos atenção nessa equipe, pois pode ser mais um daqueles times a entrarem para o hall dos grandes esquadrões. Atual bicampeão espanhol e campeão da Champions League de 2009, o Barcelona vai atrás de todos os títulos na atual temporada.

O time de Messi e companhia fez 5 gols no time de Mourinho, técnico que jamais havia perdido por uma diferença superior a três gols. O português é capaz de montar sistemas defensivos extremamente eficientes e por isso seus times costumam tomar poucos gols. Desta vez, porém, não houve mágica que resolvesse. A equipe dirigida por Mourinho ficou desnorteada diante do utópico futebol praticado pelo Barcelona. Não há como culpar o português, mesmo que ele optasse por um volante mais ágil não mudaria tanto a situação. Coube a ele apenas se juntar à massa e aplaudir de pé a orquestra azul-grená. Da minha parte, além dos aplausos, fica o agradecimento aos “Guardiola Boys”, que me lembraram porque um dia eu me encantei por um esporte chamado futebol.

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